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1.C – A brutal Devassa no território do Alto Douro

III

Ao redor destes personagens reais, outros havia de menor nomeada, ainda que não menos atuante, como eram o escrivão da devassa, Bernardo José de Sousa Guerra (o homem que escreveu os três mil cento e quarenta e um fólios do processo); Frei João de Mansilha, procurador na Corte dos negócios da Companhia, ele próprio interessado direto na boa reputação daquele importante ramo de comércio, e toda a plêiade de provedores, deputados, comissários, provadores, meirinhos, oficiais e funcionários que envolviam a administração da agricultura das vinhas do Alto Douro.                                                                                                         

Da gente comum inquirida, faziam parte dois grandes grupos: o dos que se apresentam como autores materiais das infrações, isto é, os atravessadores que conduziam o vinho de Ramo para dentro do distrito de Embarque (território onde se produzia o vinho fino), proporcionando com isso a mistura das duas qualidades; e o dos que constituíam os autores morais dessas infrações, ou seja, os que pagando os carretos proibidos ou de qualquer outro modo os instigando, eram os diretos interessados na vantagem económica do delito (a mistura).                                                                                                                                                                No primeiro grupo, compreende-se a grande massa de gente simples, carreiros, almocreves, careteiros, condutores e mais pessoas plebeias que atravessavam de noite a fronteira do vinho de Embarque, carregando às costas ou em jumentos, odres cheios de vinho de Ramo para o despejar em tonéis já meios de vinho fino, na mira de alguns reis pagos pelo carreto. No segundo grupo, estão os proprietários, pequenos e grandes, de vinhas, ora de Ramo, ora de Embarque, que lucravam com a falsificação, aumentando o volume de vinho vendido como de primeira qualidade ( a 30 35.000 reis a pipa) com vinho inferior ( pelo qual lhes não dariam mais que 10 ou 12.000 réis).                                                                                                                                                               

Revertamos, porém, à cronologia. Algumas achegas pertinentes facilitarão ao leitor a sua consulta. A primeira é a de que se trata de uma memória onde é indispensável ter presente as fontes em que se apoia. Construída com base em muitos dos documentos transcritos no apêndice, o leitor encontrará repetidas vezes, essa chamada de atenção, em nota de pé de página, ao lado de outras que referenciam obras mais gerais ou fontes ali incluídas. Também a consulta dos quadros numéricos impressos no final do volume, poderá fornecer complementos para uma visão mais circunstanciada dos agentes implicados e de como naquela região se distribuíam.                      

Depois, retrato que é do viver duriense entre 1756 e 1773 ( a cronologia dos eventos posteriores aguardará oportunidade de publicação) não contempla, com uma única exceção – o período entre 1762 e 1768 – aliás compreensível, os acontecimentos então produzidos noutras áreas de atuação administrativa de Pombal ou mesmo da Junta da Companhia. Tal excurso iria provocar franco desequilíbrio na economia de texto devotado a cronometrar a devassa que se publica. Aquela exceção, no entanto, entender-se-á como explicação oportuna do coetâneo vazio legislativo referente aos problemas do Douro.                                                                Não deixará de reconhecer-se, por fim, que o estudo aprofundado de toda a complexa situação económica e social da região vinhateira do Douro, obrigará o leitor mais exigente a recorrer a obras que detalhadamente versem os especiosos problemas que aqui só puderam ser brevemente aflorados. Não fazia muito sentido entrecortar o que se pretende roteiro cronológico com circunstancias explicações, decerto úteis, sobre técnicas vinícolas, variações de preços ou índices de exportação, que só terão pleno cabimento no estudo final de toda a inquirição.